sábado, 17 de setembro de 2011

A IMPORTÂNCIA DA BAIXA LITERATURA

Muitos colegas professores se exaltam quando a discussão descamba para a qualidade dos livros lidos pela juventude atual. Alguns acham uma merda, baixa literatura, qualidade zero. Ótimo. É bom ter essa visão crítica acerca dos vários livros ruins que são lançados anualmente no Brasil e no mundo.


Paulo Coelho, o maior vendedor de livros do Brasil.

O que alguns doutos docentes não percebem é que tais livros – série Harry Potter, série Crepúsculo, Paulo Coelho, Augusto Cury, etc. – servem como a boa e velha isca para a formação de futuros leitores. Ou alguém acha por aí que uma criatura se inicia nas letras lendo Ulisses, de James Joyce?
Para os que têm livros à mão, gozam das suas companhias, é só recuar um pouco no tempo e no espaço, lembrando-se das primeiras páginas lidas. Começou nas páginas de Os Sertões, de Euclides da Cunha, ou nos gibis de Batman, Superman ou da Turma da Mônica? O primeiro livro lido foi Grande Sertão Veredas, de Guimarães Rosa, ou as epopéias da literatura infanto-juvenil cobradas pelas professoras ginasiais em tenra infância?

O bruxinho Harry Potter é responsável por milhares de jovens lerem no mundo.

Quem, em sã consciência, gostou de ler Machado de Assis com treze, quatorze anos de idade, em pleno Ensino Fundamental? Só doido ou gênio.
Não, os livros lidos eram os de Monteiro Lobato, e olhe lá! Livros de Bartolomeu Campos Queirós, Cecília Meirelles, Ruth Rocha, Ana (e Clara) Maria Machado, Pedro Bandeira, Moacyr Scliar, Vinícius de Moraes e tantos outros povoadores do imaginário lúdico infante.
O que convém nesse debate - sobre o que é bom ou não para se ler - é fazer com que os discentes, vivendo em um mundo absurdamente virtual, agreguem o computador com os livros, o televisor com os livros, o estudo com os livros, o namoro com os livros, a música eletrônica com os livros, a novela com os livros, etc. Não é tentar apartá-los, sem nenhum motivo plausível, dos prazeres e facilidades mundanos, mas fazê-los somar a tudo isso que desfrutam hoje aos benditos livros.
E se tiver que começar com os livros do pequenino bruxo inglês (longe de ser o bruxo do Cosme Velho!), que seja! Se tiver que começar torcendo pelo namoro dos vampirinhos Bella e Edward, que seja! Se for para descortinar os mistérios do ladrão de raios, que seja!

Livro inicial da série Crespúsuclo, de Bella e Edward.

E as escolas não podem ignorar esse turbilhão de novidades que englobam a escrita no planeta. Não podem e não devem ficar obsoleta, cultuando apenas o ontem, esquecendo-se da atualidade.


Atualmente, O Ladrão de Raios arrebata a juventude.


O que não convém, no entanto, é estacionar aí nesse nível. Tem que incentivar os alunos a seguir adiante, sendo introduzidos aos poucos à boa literatura, brasileira e universal. Um livro com uma densidade linguística um pouco maior, depois outro com uma trama mais complexa. Sempre partindo da narrativa mais clássica para a modernista e pós-modernista. Depois vêm os poemas, que são leituras mais sofisticadas e necessitam de maior conhecimento do mundo e da arte literária.
Sem saber como se processam os mecanismos do deleite, e vítimas do imediatismo que ronda a educação doméstica e escolar, os adultos tendem a impor aos jovens, aos adolescentes, os livros que eles acham bons, esquecendo-se que um dia também já foram jovens sem nenhuma preocupação na cabeça.
Gustavo Atallah Haun - Professor.

5 comentários:

  1. "Valeu Gustão", estamos nos deleitando e ampliando nosso prisma conscientivo neste incrível blog!
    Obrigada!!!!!

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  2. Excelente seu artigo. Sou professora de ensino fundamental há 25 anos e penso como você. A "isca" é fundamental. Meus alunos já leem Guimarães e Graciliano no 9º ano, mas antes passaram por Paula Pimenta (entre outros).
    Valeu, professor.

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  3. Falar que ler besteira forma leitores é só blá blá blá de relativista de quem não consegue separar o bom do ruim.

    “Aquele que lê maus livros não leva vantagem sobre aquele que não lê livro nenhum.”
    Mark Twain

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    1. Ricardo, então o menino cheio de ipad, iphone e os escambau começa a ler Machado de Assis ou James Joyce porque ele tem consciência lúcida do que é bom ou ruim em literatura universal? Muito sábio de sua parte, mostra o quanto você está distante da sala de aula, parceiro... Para começar a ler Mark Twain, que você cita, eu comecei com gibis... Depois livros de lendas, fábulas, histórias infantis e juvenis! Monteiro Lobato. Claro que, se eu tiver falando com algum gênio precoce, perdoe-me a inflexão! De resto, prove-me que estou errado, com argumentos e prática em turmas que você leciona, aí passarei a pensar igual a você!
      Abraços,

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  4. Seus textos são ótimos, realmente enriquece qualquer leitor. Parabéns! virei seguidor do seu blog.

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